O Artista

A Pessoa e o Artista

Alberto José

Nasci em 29 de março de 1954 na freguesia de Marrazes, concelho e distrito de Leiria.

Em criança acompanhei e ajudei o meu avô paterno, personagem de minha referência, nos trabalhos mais variados do campo. Essa experiência ajudou-me a cimentar uma forte ligação com a Natureza, na observação pormenorizada de tudo o que a compunha, fornecendo-me as bases que iriam moldar o meu carácter como pessoa e projectar, na minha futura actividade artística, o gosto pela beleza que toda a componente natural e simples pode transmitir.

Logo cedo, como qualquer criança, comecei por usar os lápis, para encher com garatujas tudo o que fosse papel, desde cadernos da escola, passando por capas de livros, enfim, qualquer pedaço de papel servia para transmitir a visão que eu tinha do mundo que me rodeava, desde paisagens, figuras humanas, ou mesmo objectos presentes no dia-a-dia.

O espaço branco da folha de papel sempre me fascinou e atraiu, proporcionando maior criatividade nas impressões que desejava materializar. Essa atracção ainda hoje existe duma forma bastante acentuada. Por vezes é no próprio “branco”, esse vazio da tela, neste caso papel de pintura, que encontro a inspiração para o preencher com um novo projeto, tal como o escritor dá vida às páginas dum livro, através da palavra escrita.

Passada a fase escolar primária, e devido a uma educação fortemente religiosa, desejei frequentar o seminário de Leiria, onde estive durante dois anos, mantendo sempre o “bichinho” do desenho.

Entrei no mundo do trabalho aos 12 anos, tendo continuado os estudos, matriculando-me na escola nocturna. Como artista autodidata, parte da minha qualidade artística e aprendizagem foram assimiladas na observação atenta de quadros de outros artistas.

Perto do local onde trabalhava, existia uma casa comercial onde também funcionava uma galeria de arte num andar superior, muito conhecida em Leiria, que colocava regularmente na montra 2 ou 3 quadros, publicitando assim as exposições ali realizadas. Era nessa montra que os quadros expostos, em especial aqueles que tinham mais a ver com a minha percepção artística, eram minuciosamente observados e analisados tentando perceber a pouco e pouco como o artista tinha conseguido dar forma aos volumes, contrastes da luz e sombra, perspectivas, reflexos na água, etc., ali representados. Aquela montra foi, como que, a minha “escola”, onde apreendi e fui apurando, ao longo de muitas passagens pelo local, as técnicas utilizadas nos quadros expostos, quer em óleo ou aguarela.

É de inteira justiça deixar aqui registado o nome desse espaço de arte que muitas oportunidades deu a tantos jovens, entre os quais me incluo, desejosos de mostrar e divulgar a sua arte.

Galeria de Arte Capitel, é o seu nome, cujo proprietário, Sr. Joaquim Vieira, sempre com a simpatia que o caracteriza, abriu as portas desse espaço cultural a muitos artistas principiantes uns, desconhecidos outros, que ali desejavam expor, sempre acompanhados pelo carinho e incentivo que lhes dedicava.

Foi neste local que efectuei a primeira exposição no ano de 1988. Aqui, senti-me realizado e acarinhado em todas as exposições que efectuei, quer individuais ou colectivas.
Infelizmente a galeria já encerrou as suas portas, depois de, durante mais de 30 anos ter brindado o público leiriense com momentos inesquecíveis de comunhão artística, e convívios frutíferos entre artistas e público visitante.

Para além da exploração e aprendizagem que fui fazendo ao longo dos anos na pintura, experimentando as mais variadas técnicas e ferramentas, desde aguarelas ou guaches, passando pelas diversas texturas de papel, tipos de pincéis, etc., fiz também pequenos trabalhos na área do desenho, nomeadamente, banda desenhada, paixão que na fase da adolescência muito me encantou.

A aguarela e o guache, para além da sua facilidade de utilização, sempre me proporcionou em cada novo trabalho, um desafio renovado, pois o jogo permanente entre a brancura do papel e a textura das tintas não permite exageros na sua dose, o que obriga um permanente controlo em cada pincelada.

Esse é um dos grandes desafios da pintura que utiliza este material.

Defino-me como um artista autodidata e simples nos motivos que pinto, e não tenho qualquer bagagem artística aprendida em conservatórios ou escolas de pintura que me levem a pretensos altos voos ou a perder-me em discussões estéreis sobre se determinada pintura pode ser considerada arte ou não, ou ainda a discussão do seu valor comercial. Será um trabalho para os críticos de arte.

Gosto do que pinto e é quanto me basta. Considero-me o primeiro crítico dos meus trabalhos, pois a pintura representa para mim um exteriorizar de emoções que me ligam a cada trabalho que realizo, o que, visto por este prisma, todos são importantes.

Também, nos quadros selecionados para participarem em exposições, nunca foi minha preocupação se iriam ou não agradar a quem os observasse, dado que todos eles tinham passado primeiro pelo crivo da minha própria apreciação e consequente aprovação.

O conceito de Arte é subjectivo e portanto cada pessoa é livre de julgar à sua maneira, o seu valor artístico ou emocional.

Também a comercialização dos trabalhos que expus ao longo dos anos, nunca me preocupou, dado que jamais fiz da pintura a minha profissão ou fonte de rendimento, considerando-me feliz por isso, pois essa vantagem deu-me plena liberdade de criação e actuação, sem estar dependente de regras impostas por gostos ou obrigações contratadas com galerias ou empresários no ramo da arte.

Realizei a última exposição em 2007, na Galeria Capitel.

Nestes últimos anos, tenho-me dedicado à pintura de trabalhos, uns para oferecer, outros por solicitação de amigos ou conhecidos.

Foi através da pintura, que adquiri o gosto pela música, instrumental e clássica. Foi ela uma das grandes inspiradoras dos meus trabalhos e com ela criei muitos deles. A música tem por isso, um lugar de destaque na minha vida pessoal quotidiana.

Também o gosto pela leitura faz parte dos meus prazeres nas mais variadas áreas, em especial, temas históricos e de carácter regional.

Não sendo um grande apreciador de cinema, nutro pela edição de imagens um especial prazer. Por isso, edições de vídeo familiares e caseiros, preenchem também parte do meu tempo.

A fotografia, em especial da Natureza, é outra das paixões que compõem a minha “colecção” de gostos. A disponibilidade para estas realizações pessoais só é possível, devido a um estilo de vida sossegado e muito caseiro.

Para finalizar esta minha resenha biográfica como pessoa e artista, direi ainda que o gosto pela Arte, seja de que área for, desde a pintura, escultura, passando pela música, etc., deve ser cultivado, apreciado e apreendido duma forma natural, espontânea e sem rótulos de qualquer espécie.

Tal como o fotógrafo deseja muito reter uma imagem que o encanta, também o artista, olhando o mundo que o rodeia, tem a possibilidade de, ele próprio, criar as imagens que o tocam e sensibilizam, através dos seus dotes artísticos e utilizando a ferramenta adequada, para criar essas imagens, tentando dar-lhe toda a dimensão que a realidade lhe transmitiu.

20 de Setembro de 2016

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